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PUERTO MADRYN E OS VESTÍGIOS DE UMA CIDADE QUE CRESCEU OLHANDO O MAR

há 1 dia
6 min de leitura

Quando os navios pararam de navegar


Kayak no Golfo Nuevo de Puerto Madryn

Há histórias que se contam olhando para o horizonte e há outras que começam quando a gente olha para baixo. Diante da costa de Puerto Madryn, sob as águas do Golfo Nuevo e também sobre algumas de suas praias, permanecem os vestígios de embarcações que um dia navegaram por aqui.


Algumas chegaram carregadas de mercadorias, outras transportaram passageiros, outras trabalharam na pesca ou no comércio marítimo. Houve as de vida longa e aventureira. Houve também as que encontraram aqui um fim inesperado. Hoje todas integram um patrimônio que permite reconstruir como se navegava, como se trabalhava e de que maneira Puerto Madryn foi crescendo em torno de sua relação com o mar. E talvez o mais fascinante seja que, por trás de cada nome, existe uma história diferente.


Colomba: uma vida de viagens e dois finais

Em 1919, o Colomba seguia rumo a Comodoro Rivadavia quando encalhou nas proximidades da Punta Piaggio, dentro do Golfo Nuevo. Ainda não era, porém, o seu fim. Depois de recuperado, passou a transportar sal entre Puerto Pirámides e Puerto Madryn. Mais tarde, mudou outra vez de dono e de função: virou chata, um pontão de carga.

Só em 16 de setembro de 1935 um incêndio encerrou sua vida como embarcação. Desde então, seus restos permanecem sobre a praia, na região da atual avenida Guillermo Rawson com Yamanas.


Hoje sobrou apenas parte do casco. Mas esse pedaço conta algo muito maior: o Colomba pertence a uma época em que as escunas a vela, algumas já com motor auxiliar, eram protagonistas do comércio costeiro. Sua estrutura guarda as marcas daqueles últimos veleiros de casco metálico construídos para navegar e comerciar. E há um detalhe precioso: um de seus mastros sobreviveu ao navio e pode ser visto no Club Náutico Atlántico Sud.


Às vezes a história não desaparece, apenas muda de lugar.


Os cais de porto que fizeram a cidade crescer

Antes de falar de naufrágios, vale parar diante de algo que vemos com frequência sem imaginar tudo o que representa.


O antigo cais Guttyn Ebrill foi inaugurado em 1886. Quem o construiu foi um carpinteiro galês cujo nome ficou ligado para sempre àquela estrutura. Logo ele se mostrou insuficiente para o tráfego marítimo crescente de Puerto Madryn e, em 1910, deu lugar ao cais Luis Piedra Buena.


O novo cais acompanhou uma transformação enorme. Com a ferrovia em operação entre Trelew e Puerto Madryn, a cidade se tornou ponto de conexão entre a colônia galesa da Patagônia, outros portos patagônicos, Buenos Aires e o exterior.


Por ali entraram mercadorias, pessoas, materiais e maquinário. Muito depois, em 1972, chegou o primeiro navio de cruzeiro. O mesmo cais que um dia recebeu embarcações ligadas ao crescimento da Patagônia faz parte hoje da experiência turística de Puerto Madryn.


A história marítima, nesse caso, não está escondida. Caminhamos sobre ela todos os dias.


Rio de Ouro: um navio que ainda deixa perguntas

A cerca de 800 metros da costa, perto do cais Piedra Buena, descansam os restos do Río de Oro.


O que sobrou é parte do casco de uma embarcação de madeira, de uns 24 metros de comprimento. Preservam-se elementos da estrutura, peças do sistema de ancoragem e um trecho de corrente.


O mais interessante desse naufrágio, talvez, seja o fato de sua história ainda ter zonas de incerteza.


As fontes históricas não se entendem por completo sobre que navio foi o Río de Oro, quando naufragou nem qual era exatamente sua atividade. Um registro de 1918 menciona um vapor com esse nome destruído por um incêndio em Puerto Madryn. Outra pesquisa o associa a um pesqueiro de bandeira argentina dedicado à captura do cação. As datas, porém, não fecham: se o naufrágio ocorreu no início do século XX, essa pesca ainda não havia se desenvolvido na região.


Os próprios pesquisadores apontam a contradição. E aí aparece uma das coisas mais bonitas da arqueologia: nem sempre se trata de ter todas as respostas, e sim de continuar fazendo perguntas.


Emma: uma escuna que navegou rumo a uma história incrível

E então aparece a Emma.


Construída no Maine, nos Estados Unidos, em 1883, essa escuna de madeira de dois mastros tinha uma vida longa pela frente. Durante décadas navegou por diferentes portos da Patagônia e das Ilhas Malvinas.


Transportou carga e passageiros, participou da caça de lobos-marinhos e da pesca do cação. Em 1916, contudo, sua trajetória quase a levou a um cenário extraordinário. Naquele ano foi fretada por Ernest Shackleton para tentar resgatar os integrantes de sua expedição antártica, que haviam ficado isolados após a perda do Endurance.


A missão não se cumpriu: os blocos de gelo e a quebra do motor impediram. Mesmo assim, aquela pequena escuna ficou vinculada para sempre a uma das grandes histórias da exploração polar.


Décadas depois, em 1947, a Emma estava fundeada diante de Puerto Madryn quando um incêndio provocou seu afundamento. E aqui surge outra surpresa: nos anos 1950, seus restos se tornaram um dos primeiros pontos de mergulho de Puerto Madryn. Pouco mais de dez anos depois, ali nasceu o primeiro parque submarino da Argentina.


Sobrou pouca coisa. O suficiente, porém, para que quem mergulha naquele ponto não esteja apenas diante de um navio afundado. Está entrando numa história que começou há mais de 140 anos, cruzou mares, chegou a uma expedição antártica e terminou no nosso Golfo.


Villarino: um navio que também trouxe histórias para a Patagônia

O Villarino foi lançado ao mar na Inglaterra em 1880 e pertenceu à Marinha argentina. Sua primeira viagem já foi extraordinária: repatriou para a Argentina os restos mortais do General José de San Martín, o libertador do país. Depois começou uma longa relação com a Patagônia. Percorreu seus portos transportando mercadorias e pessoas, realizou levantamentos hidrográficos e participou até da construção do Farol de San Juan de Salvamento, mais tarde conhecido como Farol do Fim do Mundo.


Em 1899, durante sua centésima primeira viagem pela região, chocou-se contra uma laje rochosa nas Islas Blancas, na Bahía Camarones, e acabou abandonado.


Muitos anos mais tarde, em 1970, um grupo de mergulhadores de Puerto Madryn desceu até seus restos. Aquela foi a primeira de várias expedições, que terminaram com a retirada da hélice.


Hoje essa hélice está na nossa cidade, ao lado do busto de San Martín. Uma parte do navio que um dia levou os restos do Libertador encontrou destino novo em Puerto Madryn.


E ainda restam muitas histórias

Há o rebocador Madryn, construído em 1911 para trabalhar junto ao cais Piedra Buena e que terminou encalhado em 1944, depois de um temporal de norte soltar suas amarras.


O Bahía Galenses é um naufrágio cuja identidade segue sem definição e que leva esse nome por estar no setor onde desembarcaram os colonos galeses em 1865. Entre seus restos apareceram grandes caldeirões compatíveis com os usados por baleeiros do século XIX.


Existe ainda uma possibilidade digna de romance: pesquisadores levantam a hipótese de que esses restos correspondam ao Dolphin, um baleeiro norte-americano naufragado em 1859. Seus tripulantes foram resgatados por Luis Piedra Buena, que os levou até Carmen de Patagones. A identificação não é definitiva, mas a suposição abre uma janela fascinante para a história da navegação baleeira nestas costas.


Some-se a eles o enorme Kaiser, construído na Alemanha em 1881, que percorreu rotas comerciais entre Europa, África e Índia antes de chegar a Puerto Madryn.


Em 1915, já convertido em pontão e depósito, sofreu um incêndio num compartimento de combustível. Tentaram rebocá-lo e encalhá-lo, só que durante a noite a maré o colocou de novo à tona e o navio entrou golfo adentro. Três dias depois foi novamente rebocado e encalhado perto de Punta Cuevas.


Bem mais recente, o Folías pegou fogo em mar aberto em dezembro de 1980, foi rebocado até a Playa Paraná e ali tentaram encalhá-lo. Dois dias depois, maré e vento o levaram de volta para o mar, onde por fim afundou.


Hoje é o naufrágio mais visitado pelos mergulhadores da região e também recebe apneístas, caiaquistas e embarcações. Seu casco virou, além disso, abrigo e suporte para uma comunidade diversa de organismos marinhos.


Quando conhecemos as histórias, o Golfo muda. Talvez esse seja o verdadeiro valor destes naufrágios.


Não são apenas estruturas de madeira e ferro. Não são apenas pontos numa carta náutica.

São fragmentos de vidas que ficaram suspensos no tempo. Alguns podem ser vistos da costa. Outros exigem mergulho. De certos navios restam pouquíssimas peças, enquanto de outros ainda se reconhece boa parte da estrutura.


Todos, porém, têm algo em comum: falam de um Puerto Madryn profundamente ligado ao mar.


O próprio guia que reúne estas pesquisas diz com clareza: trata-se de um patrimônio frágil e insubstituível, e ao mesmo tempo de uma fonte privilegiada para conhecer a navegação patagônica, a história local e as mudanças na tecnologia naval. Quanto mais se conhece, mais possibilidades existem de aproveitar e preservar.


Quem sabe um dia possamos percorrer essas histórias como parte de uma experiência turística mais ampla. Caminhar pela costa reconhecendo onde estiveram aqueles cais, visitar os vestígios que ainda sobrevivem, mergulhar no Golfo para encontrar os navios que descansam sob suas águas e, acima de tudo, escutar o que eles têm a contar.


Porque, depois de conhecê-las, há uma coisa que não conseguimos mais fazer: olhar o Golfo Nuevo como antes.


Claudia Martitsch

Mergulhadora e apneista

Diretora de Operações da Slow & Steady Travel Patagônia

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